
Ao longo do tempo, lidando com diversas ações envolvendo os direitos das pessoas com autismo, como pedidos de redução da carga horária, torna-se evidente que cada família vive uma realidade única, com desafios próprios, rotinas distintas e necessidades muito específicas.
Nesse contexto, é impossível não perceber como a qualidade do acompanhamento psicológico faz toda a diferença. Não apenas para a criança, mas para toda a família que sustenta esse cuidado no dia a dia.
Quem convive com o Transtorno do Espectro Autista sabe que o cuidado não se limita a uma consulta terapêutica eventual. Ele envolve rotina, constância, acompanhamento profissional contínuo e presença ativa da família.
E tudo isso, inevitavelmente, exige tempo.
O IMPACTO DO AUTISMO NA ROTINA FAMILIAR SOB A ÓTICA DO ACOMPANHAMENTO PSICOLÓGICO
Pesquisas científicas nacionais e internacionais mostram que famílias de crianças com autismo apresentam níveis significativamente mais baixos de qualidade de vida quando comparadas à população geral.
Esses estudos apontam, de forma consistente, que pais e cuidadores enfrentam:
Assim... não se trata de uma percepção isolada ou de um discurso emocional. Trata-se de um fenômeno amplamente estudado e documentado pela psicologia.
Um exemplo claro de como essa sobrecarga se materializa no dia a dia pode ser observado no acompanhamento terapêutico da criança autista.
Do ponto de vista clínico, o psicólogo sabe que o tratamento não começa no consultório e não termina ao final da sessão. Muitas vezes, é necessário um preparo prévio longo, envolvendo organização da rotina, previsibilidade e estabilidade emocional da criança.
Esse cuidado exige comparecimento regular a consultas, que muitas vezes acontecem duas ou mais vezes por semana. Algumas crianças apresentam dificuldade de socialização ou sensibilidade a ambientes, o que impede o uso de qualquer meio de transporte ou a companhia de qualquer pessoa para as idas nas consultas.
Há casos em que a simples troca de roupa demanda tempo, devido à sensibilidade a determinados tecidos, assim como a alimentação pode levar uma ou duas horas em razão da seletividade alimentar.
Quando o responsável pela criança autista está submetido a uma jornada de trabalho rígida e extensa, incompatível com essa realidade, o que acontece na prática é:
É exatamente por isso que esse tema precisa ser tratado com seriedade. A ausência de condições adequadas para que a família esteja presente compromete não apenas o andamento do tratamento, mas também a saúde mental de quem cuida.
A redução da carga horária não foi criada para conceder privilégios. Ela existe porque o Estado reconhece que o autismo apresenta desafios significativos, não apenas para a pessoa autista, mas também para toda a estrutura familiar que a acompanha.
A legislação prevê essa adaptação da jornada porque reconhece que:
E os psicólogos têm um papel fundamental nessas constatações, pois é por meio de seus estudos e acompanhamentos que se amplia, cada vez mais, a compreensão sobre as necessidades, os desafios e a realidade vivida pelas pessoas com autismo e por suas famílias.
Apesar de o autismo estar cada vez mais presente no debate público, ele ainda é uma realidade pouco compreendida pela maioria das pessoas.
Dados do IBGE indicam que há cerca de 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com autismo no Brasil, o que corresponde a aproximadamente 1,2% da população brasileira, ou seja, ainda se trata de uma parcela minoritária da população, o que faz com que grande parte das pessoas nunca tenha tido contato direto, frequente e profundo com a rotina de uma família atípica.
A IMPORTÂNCIA DE NÃO BANALIZAR ESSE DIREITO
Quando falamos sobre os direitos das pessoas com autismo, é indispensável compreender que esse debate não pode estar dissociado da saúde emocional e do cuidado contínuo.
Nesse contexto, o papel do psicólogo e de outros profissionais que acompanham a criança é fundamental. São esses profissionais que, por meio da observação clínica, do acompanhamento ao longo do tempo e da escuta da família, conseguem identificar com profundidade o que aquela família atípica realmente vivencia no dia a dia.
Saúde, cuidado e direitos caminham juntos.
Quando atuamos em processos de redução da carga horária, por exemplo, os laudos elaborados por esses profissionais são essenciais.
Não porque seja necessário exagerar ou dramatizar, mas porque a realidade já é, por si só, suficientemente exigente.
É por meio desses documentos que conseguimos apresentar uma descrição fiel da rotina da família, dos desafios específicos enfrentados e da necessidade concreta de adaptação da jornada de trabalho.
Quem não convive com o autismo no dia a dia tende a enxergar apenas recortes superficiais da realidade. Em situações de crise, por exemplo, muitas pessoas interpretam comportamentos autistas como birra, falta de educação ou ausência de limites. Outras acreditam que se trata de exagero dos pais ou de uma forma de chamar atenção.
Para o psicólogo, esse julgamento é claramente fruto do desconhecimento, não da realidade clínica.
Esses profissionais conseguem perceber, com clareza e uma observação extremamente cuidadosa, dificuldades que muitas vezes passam despercebidas para quem está de fora. Eles identificam, nas entrelinhas da rotina, situações que para muitos parecem banais, como o simples ato de trocar de roupa, mas que podem ser um grande desafio para uma criança com sensibilidade a determinados tecidos. Conseguem compreender a seletividade alimentar, a dificuldade com determinados tipos de toque, o sofrimento em situações como cortar o cabelo ou lidar com barulhos intensos, como o trânsito ou ambientes movimentados.
A partir dessa leitura sensível e técnica, os psicólogos elaboram laudos completos, detalhados e éticos, capazes de traduzir uma vivência complexa em palavras.
Esses documentos ajudam o Judiciário e a administração pública a enxergar que os direitos das pessoas com autismo não devem ser banalizados, mas analisados com seriedade, humanidade e respeito.
Por isso, sempre que avaliamos documentações elaboradas por profissionais que acompanham de perto essas famílias, nos deparamos com descrições mais precisas, mais fiéis e mais alinhadas à realidade vivida. É esse cuidado que permite que o direito seja reconhecido não como privilégio, mas como resposta necessária a uma situação concreta e exigente.
É nesse contexto, ainda, que instrumentos como a carteirinha da pessoa com autismo ganham relevância, justamente para evitar julgamentos indevidos, constrangimentos públicos e a banalização de uma condição que exige cuidado, atenção e compreensão diferenciada.
Em muitos casos, infelizmente, nem mesmo o Judiciário ou a administração pública conseguem captar essa dimensão com a sensibilidade necessária. A análise fria de documentos, sem compreensão da rotina familiar, pode levar à minimização do problema.
Por isso, o trabalho do psicólogo é tão importante. Ele ajuda a traduzir essa rotina em linguagem técnica, ética e humana, permitindo que a realidade da criança e da família seja compreendida de forma mais ampla.
CONCLUSÃO
Vivemos, de fato, importantes avanços na medicina e no meio jurídico, com mais informações, pesquisas e direitos reconhecidos. Ainda assim, são poucas as pessoas que convivem de perto com o autismo e conseguem compreender, de forma real, a complexidade dessa vivência no cotidiano familiar. Nesse cenário, o papel do psicólogo se torna essencial.
É esse profissional que entende a dinâmica do cuidado, observa a rotina, identifica as dificuldades e traduz essa realidade de forma segura, ética e técnica por meio de laudos bem fundamentados.
Esses documentos permitem que os direitos das pessoas com autismo e de suas famílias sejam analisados com a seriedade, a sensibilidade e o respeito que a situação exige.