
Este artigo aborda os direitos dos servidores públicos que possuem filhos autistas e necessitam de mais tempo para cuidar seu filho autista, sem sofrer perdas salariais ou responder um processo administrativo disciplinar (PAD) por faltas.
A redução da carga horária é um direito (e não um favor!) garantido por lei e confirmado por decisão do Tribunal Superior para todos os servidores públicos do Brasil – sejam municipais, estaduais ou federais. Isso permite que o servidor diminua sua jornada de trabalho sem perder salário ou benefícios (como auxílio alimentação, transporte e outros).
Vale ressaltar que a principal finalidade dessa diminuição da carga horária é permitir que servidores públicos possam dedicar tempo e atenção adequados ao cuidado e desenvolvimento da criança autista, evitando prejuízos causados por eventuais faltas ao trabalho — algo que, como sabemos, pode ocorrer por diversos motivos.
Uma pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo (USP) mostrou que terapias mediadas pelos pais podem reduzir sintomas e melhorar habilidades sociais em crianças com autismo.
QUAL É O PERCENTUAL DE REDUÇÃO?
Não há um percentual fixo estabelecido; a redução da jornada do servidor público pode variar entre 20% e 50%, dependendo do grau de complexidade do autismo, da distância até as terapias, da rede de apoio disponível e de outros fatores que serão abordados ao longo desse artigo.
HÁ MOMENTO IDEAL PARA SOLICITAR ESSA REDUÇÃO?
Não existe um momento específico para solicitar a redução da jornada. Esse pedido pode ser feito a qualquer instante, mesmo que o diagnóstico tenha ocorrido há bastante tempo. Isso se deve ao fato de que o autismo pode apresentar diversas mudanças ao longo da vida, podendo haver melhora ou agravamento das condições.
HÁ ALGUM GRAU DE AUTISMO NECESSÁRIO?
Não há restrição: pais de crianças autistas, independentemente do grau ou tipo de autismo, podem solicitar redução da carga horária.
Um ponto importante que precisa ser esclarecido é que o acompanhamento profissional de um autista não está ligado ao seu nível do autismo, seja nível 1, 2 ou 3. O Transtorno do Espectro Autista é uma condição do neurodesenvolvimento que se manifesta de formas diferentes em cada pessoa, mas que, em todos os níveis, exige suporte, acompanhamento e organização da rotina.
A classificação por níveis indica a quantidade de suporte necessário, e não a existência ou inexistência de necessidades. Mesmo pessoas classificadas como nível 1 apresentam dificuldades que impactam a vida cotidiana, como desafios na comunicação social, na adaptação a ambientes, na previsibilidade da rotina e na regulação emocional.
Essas dificuldades, quando não acompanhadas adequadamente, tendem a gerar sobrecarga, sofrimento emocional e prejuízos na qualidade de vida ao longo do tempo.
TODOS OS SERVIDORES PÚBLICOS POSSUEM ESSE DIREITO?
Nem todos os servidores públicos com filhos autistas têm automaticamente esse direito. É necessário comprovar que o acompanhamento é realmente essencial, geralmente por meio de laudos médicos que recomendam terapias, atividades físicas, consulta com nutricionista, fonoaudiólogo, fisioterapeuta e outros profissionais, além de apresentar todas as atividades do filho que demandam a presença dos pais.
Por isso, é indicado detalhar em uma planilha os horários das atividades, as distâncias até os compromissos médicos e demais compromissos.
COMO SOLICITAR A REDUÇÃO DA CARGA HORÁRIA?
A redução da carga horária pode ser solicitada por dois caminhos:
O primeiro é pela via administrativa. Nesse caso, não há necessidade de ingressar com um processo judicial. O pedido é feito diretamente ao setor de recursos humanos do órgão público ao qual o servidor está vinculado. É nesse setor que a solicitação deve ser formalizada.
Cada órgão público pode exigir documentos específicos para analisar o pedido. Ainda assim, existem documentos que são fundamentais e que devem ser apresentados, mesmo que o órgão não os solicite de forma expressa. Esses documentos serão explicados em um próximo tópico.
O segundo caminho é a via judicial. Ela é utilizada quando o pedido administrativo é negado ou quando há demora excessiva para análise e resposta por parte da administração pública. Nessa situação, é necessário ingressar com uma ação judicial para garantir o direito à redução da carga horária, apresentando toda a documentação necessária para comprovar a situação.
COMO FAZER O PEDIDO PELA VIA ADMINISTRATIVA (RH)
O pedido de redução da carga horária deve ser feito, inicialmente, pela via administrativa (não é possível ingressar com pedido judicial antes dessa etapa). Para isso, o servidor público precisa procurar o setor de recursos humanos do órgão ao qual está vinculado e realizar a solicitação de forma formal.
Esse pedido precisa ser feito por meio de requerimento escrito, acompanhado dos documentos necessários para comprovar a situação que justifica a redução da jornada de trabalho.
Após protocolar o requerimento, entregue uma cópia à chefia imediata para ajudar a agilizar o processo.
Disponibilizei um modelo de requerimento para auxiliar você, juntamente com uma lista completa de documentos que devem ser anexados. Assim, você poderá preparar e protocolar seu próprio pedido no órgão administrativo de forma correta e fundamentada.
Ainda, é fundamental observar se o órgão público possui decreto, portaria ou norma interna que regulamente a concessão da redução da carga horária. Cada órgão pode estabelecer regras próprias, como:
Em muitos casos, esses normativos preveem a necessidade de comprovação periódica da situação, como a apresentação de novos laudos ou relatórios a cada seis meses, para demonstrar que a redução da carga horária ainda é necessária.
Por fim, é importante esclarecer que a inexistência de decreto ou norma interna no órgão público não impede o exercício desse direito. A redução da carga horária decorre de um direito assegurado aos servidores públicos e pode ser requerida independentemente da existência de regulamentação específica no órgão ao qual o servidor esteja vinculado.
COMO FAZER O PEDIDO PELA VIA JUDICIAL
O pedido pela via judicial é utilizado quando a solicitação feita pela via administrativa é negada ou quando há demora excessiva do órgão público em analisar ou responder ao pedido de redução da carga horária.
Nessa situação, o servidor público precisa ingressar com uma ação judicial para garantir o exercício do direito à redução da jornada de trabalho. Para isso, é necessário reunir toda a documentação que comprove a necessidade da redução, como laudos, relatórios profissionais e o comprovante do pedido administrativo realizado anteriormente.
Na via judicial, o juiz analisa a situação concreta do servidor, levando em consideração a necessidade de acompanhamento da criança, a rotina familiar e os documentos apresentados. Quando reconhecido o direito, a redução da carga horária pode ser concedida independentemente da existência de decreto específico no órgão público.
O pedido judicial costuma ser adotado como medida de proteção quando a administração pública cria obstáculos indevidos ou deixa de cumprir um direito já assegurado, sendo uma alternativa para evitar que a demora ou a negativa prejudiquem a criança e a família.
DOCUMENTOS NECESSÁRIOS PARA O PEDIDO DE REDUÇÃO DA CARGA HORÁRIA
A documentação é um dos pontos mais importantes no pedido de redução da carga horária, tanto na via administrativa quanto na via judicial. Não basta apenas comprovar o diagnóstico. É necessário demonstrar, de forma clara, como a rotina da criança impacta diretamente a organização da vida familiar e a jornada de trabalho do servidor público.
Muitos pedidos acabam sendo indeferidos porque se limitam apenas à apresentação do laudo de diagnóstico do transtorno do espectro autista e de receitas médicas, sem demonstrar a realidade vivenciada pela criança e por sua família. A documentação precisa ir além do básico, trazendo elementos que revelem a rotina, as dificuldades e as necessidades do cuidado diário.
É nesse ponto que a atuação desses profissionais se torna essencial, pois a observação clínica e o acompanhamento contínuo permitem retratar essa realidade de forma mais fiel e completa.
Entre os documentos essenciais, estão:
Além desses documentos, é altamente recomendável apresentar um material complementar que demonstre a rotina real da criança e a necessidade concreta da redução da carga horária.
Esse material pode incluir, por exemplo:
Também é fundamental descrever as dificuldades do cotidiano que não aparecem em laudos médicos tradicionais, como:
Essas informações ajudam a demonstrar que o cuidado com a criança autista não se limita a uma consulta psicológica pontual, como muitas vezes se imagina. Trata-se de um acompanhamento sério, contínuo e construído ao longo do tempo, a partir da atuação responsável de profissionais qualificados e da participação ativa dos pais.
É exatamente por isso que o trabalho dos psicólogos são fundamentais para que essa realidade seja corretamente compreendida e respeitada.
Quanto mais completa for a documentação, maiores são as chances de o pedido ser compreendido corretamente, evitando que a redução da carga horária seja tratada como conveniência ou excesso, quando na verdade se trata de uma necessidade real para garantir o bem-estar da criança e da família.
QUAL O TEMPO DE RESPOSTA DE UM PEDIDO DE REDUÇÃO DA CARGA HORÁRIA?
Uma das maiores dúvidas de servidores públicos que solicitam a redução da carga horária é sobre o tempo de resposta. Abaixo, explico como funciona esse prazo em cada situação.
Esse prazo não é fixo, pois pode variar conforme a organização do Judiciário e a complexidade da situação, mas, em geral, a via judicial costuma ser mais rápida do que aguardar indefinidamente uma resposta administrativa.
Resumo prático:
A IMPORTÂNCIA DE PROFISSIONAIS QUALIFICADOS NO CUIDADO DA PESSOA COM AUTISMO
O cuidado da pessoa com autismo exige a atuação de profissionais qualificados e experientes, como médicos, psicólogos e psiquiatras. São esses profissionais que acompanham a evolução do quadro, orientam a família, identificam necessidades específicas e ajudam a organizar a rotina de forma mais adequada e segura.
Ele permite compreender o funcionamento da pessoa autista ao longo do tempo, ajustar intervenções, apoiar os cuidadores e contribuir para a melhoria da qualidade de vida da criança e da família como um todo.
CONCLUSÃO
Muitos servidores públicos se sentem desconfortáveis ao fazer o pedido de redução da carga horária, por acreditarem, de forma equivocada, que estão solicitando “um favor” ao órgão público. Essa percepção não corresponde à realidade, pois se trata de um direito que pode e deve ser exigido.
Esse direito existe porque o cuidado com a criança autista exige tempo, presença e acompanhamento contínuo.
Como foi demonstrado ao longo deste artigo, quanto maior a dedicação dos pais ao cuidado do filho, melhores tendem a ser os resultados no desenvolvimento, na redução de sintomas e na ampliação das habilidades sociais. Inclusive, pesquisa realizada pela Universidade de São Paulo comprovou que a participação ativa dos cuidadores no acompanhamento da criança contribui de forma significativa para esses avanços.
A redução da carga horária não beneficia apenas a criança. Ela também impacta diretamente a qualidade de vida dos pais e responsáveis.
Garantir a redução da carga horária é, portanto, uma forma de proteger a criança, preservar a saúde emocional da família e permitir que o cuidado aconteça de maneira mais organizada, contínua e humana.
Por fim, é importante lembrar que a redução da carga horária faz parte de um conjunto maior de direitos garantidos às pessoas com autismo e às suas famílias. Entre esses direitos, está também a carteira de identificação da pessoa com autismo, que facilita o acesso a atendimento prioritário, serviços públicos e adaptações necessárias no dia a dia.
Se quiser se aprofundar no tema, esse assunto também é explicado em um vídeo em nosso canal.